Não existe culpa sem ter responsabilidade

Então, quando ela [Hannah Arendt] diz que não existem regras permanentes, não é que eu possa fazer qualquer coisa e inventar a regra de matar o outro Por que eu não quero que mate o outro? Porque, evidentemente, eu não quero que mate a mim e é esse o sentido de pensarmos uma responsabilidade pessoal mesmo em situações, como em um dos textos mais brilhantes dela, da responsabilidade pessoal em uma ditadura

Não existe culpa sem ter responsabilidade Nas organizações criminosas, como, por exemplo, um Estado totalitário, como, por exemplo, numa ditadura, são os pequenos dentes da engrenagem que cometem os maiores crimes, por isso a banalidade de Eichmann O argumento da ordem superior é sempre inadequado O que Hannah Arendt vai trabalhar é: Não existe a noção de obediência em política Troque a palavra “obediência” por “apoio”, e daí você vai perceber o lugar em que você está

Então não estou apenas obedecendo um Estado, eu estou apoiando um Estado Eu não estou apenas obedecendo diretrizes que é evidente, que o sistema é totalitário, que os riscos eram enormes, é compreensível que as pessoas possam se afugentar, é compreensível que as pessoas não tenham outra alternativa, mas Hitler não começou poderoso Ele tornou-se poderoso É muito fácil pensar como sendo a personificação de todo o mal do século 20, difícil é entender porque é que as pessoas pactuaram com ele ao longo do século 20 Obedecer é apoiar

O deslocamento do vocabulário já vai fazer com que a gente se sinta incomodado com a maneira com que nós respondemos às nossas questões A estratégia do pensamento é a única coisa que pode nos dar condição de fazermos alguma escolha minimamente razoável Inclusive da escolha do não votar, é uma escolha Ou na escolha em um sistema que pode parecer mais radical, ou mais ameaçador também é uma escolha Eu tenho que ter transparência para dizer a mim mesmo que eu estou deliberadamente correndo riscos

Não dá para agir como Eichmann fazendo de conta, “eu não sabia”, tem um monte de coisa que eu não sei, é verdade Mas tem outras tantas que nós sabemos, e com aquilo que eu tenho da minha experiência e daquilo que eu tenho como meu conhecimento e no tempo em que eu estou, eu tenho que fazer a melhor escolha É no expressar a divergência e a concordância que eu não vou permitir a simples adesão a regimes de força O fanatismo não favorece o pensar, da mesma maneira que às vezes os nossos comprometimentos prévios muitas vezes também retiram de nós a autonomia do pensamento, a autonomia no sentido de que eu estou filtrando certas informações e eu estou incorporando aquelas informações como sendo minhas, mesmo que não produzidas por mim O meu silêncio torna-se cúmplice das ações totalitárias e das ações ameaçadoras

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