É preciso viver com paixão

O Espinoza vai falar de afetos ativos e de afetos passivos A gente tem uma impressão tão grande pelo senso comum e pela história tradicional da filosofia que, no geral, se confundem, que todo afeto intenso é necessariamente passional, ou é necessariamente passivo

Eu sinto um afeto com intensidade, a ideia familiar tradicional do senso comum e, não à toa, da história da filosofia, é de que eu vou sucumbir à essa intensidade E o Espinoza não pensa assim, ele vai o tempo inteiro mostrar em que condições e como os afetos, do que ele chama de razão, que não é a razão como tradicionalmente é compreendida Os afetos da compreensão, do inteligire, do compreender, eles podem ser muito mais, ele usa o termo intensos, muito mais fortes do que os afetos passionais, dos quais eu sou não só causa parcial, mas, na maioria das vezes, sucumbo aos afetos de tristeza ou alegria passivos, como ódio, raiva, ciúmes, enfim Ele vai tentar mostrar, justamente, como que nós podemos nos afetar intensamente, de modo que a intensidade dos afetos que são ativos possa ser superior à intensidade, à força dos afetos passivos Embora, ele explicite que só um afeto mais forte combate ou se sobrepõe ou desfaz um outro afeto

Então, se a proposta dele, na ética, é justamente como o que ele chama de razão, volto a dizer, que é diferente do que a tradição chama de razão, e a compreensão, em latim, que não é o verbo cognoscere, conhecer, mas inteligire, compreender, e a compreensão precisam ser afetos mais intensos, caso contrário, nos estaríamos fadados aos afetos passivos e à passionalidade, à todas as torturas, tão bem retratadas na literatura e na história da filosofia tradicional, em nome das paixões e dos afetos passivos O quê ele está falando é do entusiasmo Ele não está criticando a intensidade dos afetos, ele está dizendo que o quê a gente pode chamar de entusiasmo é que os afetos ativos, aqueles que se explicam pela minha própria potência, e não como reação e defesa a uma ameaça ou a uma motivação externa Aqueles que se explicam pela minha própria potência, eles podem ser intensos e eles só se sobrepõem às defesas psíquicas, ao medo, às ameaças, quando eles são mais intensos do que os afetos passivos No senso comum, a gente pensa assim 'é preciso fazer as coisas, viver com paixão'

É isso que Espinoza está dizendo, ele só não diz paixão, porque ele guarda a palavra paixão para falar afeto passivo

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